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A Crise da Crise do Movimento Sindical
Analisar
o movimento sindical com respostas rápidas é muito fácil e demasiadamente
simplório. Temos observado as seguintes respostas: a) O desenvolvimento tecnológico
e as novas relações de trabalho impostas pela globalização exigem uma
organização diferenciada que os dirigentes não estão conseguindo construir;
b) A quantidade de correntes que há no movimento sindical não permite sua
unidade e acaba atrapalhando a luta; c) O capitalismo mudou, o mundo mudou e as
formas de luta dos trabalhadores estão superadas, o que indica que o movimento
sindical tende a ser superado com o tempo; d) Há uma crise de direção no
movimento que, por isso, não consegue identificar os caminhos para essa nova
etapa histórica. Enfim, poderíamos ficar detalhando uma a uma resposta fácil
que aparece nesse debate e que coloca o problema no interior do próprio
movimento. Tendemos a achar, entretanto, que o problema está externo ao
movimento que certamente o influencia em sua luta e organização.
Vivemos
sim um problema central na luta de classes. O capitalismo está em crise e o
movimento socialista não conseguiu, mais uma vez, acumular forças para
apresentar um projeto de um novo bloco histórico que possa hegemonizar os
trabalhadores. As grandes crises do capitalismo, ou a vivida em 29, ou na grande
guerra, ou mesmo a atual, não está encontrando uma contrapartida do conjunto
do movimento operário, que durante todo esse processo se fragilizou.
Isso
não quer dizer que não existam alternativas. Existem e já foram conhecidas
pelo mundo. A vitória dos Bolcheviques em 1917 na antiga Rússia, levantando na
prática a possibilidade real desse projeto se alastrar pelo mundo, inquietou a
burguesia de todos os países. Naquele momento a alternativa do socialismo não
era somente as bandeiras, as lutas e as organizações operárias. O socialismo
não era apenas um espectro que rondava o planeta, mas uma realidade que ameaçava
o fim definitivo da mais valia. Outro exemplo que deve ser lembrado e deve fazer
parte constante das nossas lutas, é a resistência do povo cubano. Os EUA fazem
de tudo para desestabilizar, desmoronar, destruir o país, mas a autodeterminação
do povo garante a contínua caminhada resistente de um modelo anti-capitalista.
Se em nenhum dos dois casos serviram até hoje como ponto de partida para criar
um novo modo de produção, se não conseguiram espalhar suas experiências de
forma concreta para ser utilizadas por outros povos, essas duas experiências
serviram como paradigma para impulsionar e reforçar a luta de socialistas em
todos os continentes. Portanto, o projeto socialista continua atual, válido e
assim será enquanto o inimigo for o capital. Nossas críticas e nossas diferenças
sobre o que representou e representa tais experiências não pode desconsiderar
a contribuição que trouxeram para a humanidade. Na verdade as diferenças que
existiram no mundo, pós formação do modo de produção capitalista, só foram
diferentes do capital, quando a bandeira e o projeto socialistas eram as setas
que davam o caminho. O projeto do capital não prevê um mundo plural, ainda
estamos na pré-história.
As
mudanças que ocorreram no mundo, juntam um retorno ao liberalismo por um lado e
por outro um desenvolvimento tecnológico e gerencial profundamente superiores
aos do passado. Essa contradição, sem dúvida nenhuma, diversifica o mundo do
trabalho. Diversifica em funções, contratos e na relação com o capital, com
o patronato em geral. Mas essa diversificação não é causa da crise. É um
problema, um obstáculo, mas não causa da crise. A crise que hoje chega e
emperra o movimento tem um lastro generalizado que atinge partidos, outras
organizações e o movimento sindical que, como principal organização histórica
dos explorados, não poderia ficar fora dela.
Sem
dúvida nenhuma, a crise aparece no movimento através do imobilismo, do
adaptacionismo, da incapacidade de respostas, da burocratização, da
despolitização. Há uma disputa em curso, a CUT está cada vez mais
tensionadas por posições profundamente diferenciadas. Mas tudo isso é a forma
com que a crise aparece. A crise da crise está, entretanto, em respostas obvias
que não aprofundam o problema. Todo o movimento enfrentou, desde a derrocada do
chamado “socialismo real”, passando pela construção do processo de
globalização, até os dias de hoje, um grande golpe. Isso, para servir como
aprendizagem para hoje, deve ser pensado historicamente a luz da luta de
classes.
No
Brasil a luta de classes permitiu, no final da década de 70 e início da década
de 80, criar um movimento sindical combativo e arrancar vitórias de um
capitalismo tardio com um modelo de esgotamento profundo. Depois da primeira
eleição presidencial, quando a burguesia conseguiu organizar uma trégua
interna e vencer, temporariamente, sua crise de hegemonia, apresentando um
candidato que a representava e a fortalecia na unificação provisória, as
coisas mudaram. Juntando isso ao alinhamento do país no movimento capitalista
internacional, o capital dobrou suas forças contra os trabalhadores. Daí o movimento, representado por sua maior e principal
central Latino Americana, a CUT, não conseguiu se apresentar mais no cenário
como a principal trincheira.
Por
outro lado, como já aconteceu em sociedades com a realidade parecida com a do
Brasil, onde há um estado complexo, um razoável desenvolvimento das forças
produtivas, aparece, no interior do próprio movimento operário defensores da
política de melhorar as condições de vida. De um lado ficam alguns ortodoxos,
que não percebem a influência blanquistas em suas posições e apostam em
pequenos grupos de revolucionários sem apoio real das massas; de outro os
chamados “sociais democratas”, com o conteúdo posterior a 1919, que acabam
encontrando pontos de encontros com liberais e pós-estruturalistas para suas análises
e práticas; por outro um movimento com trabalhadores com baixo grau de formação,
onde o senso comum encontra um terreno fértil para se desenvolver. Essa
realidade interna, em um momento de pleno refluxo da luta de classes, onde a
correlação de forças aparece favorável à burguesia, dificulta uma mudança
substantiva.
Mesmo
com a rejeição que sofre hoje o
presidente, as reformas estão anunciadas e o FMI (representante principal do
imperialismo) continua forçando as mudanças necessárias para o mundo do
capital. Para nós cabe então acumular forças, apostar no esclarecimento, na
luta, na crítica. A crítica e a luta de massas são sempre nossas armas. Não
podemos abrir mão nem de uma, nem de outra. Enquanto houver luta de classes,
enquanto o capitalismo não for superado pela sociedade sem exploração,
enquanto persistir esse bloco histórico (ou esse modo de produção), não
haverá fim dos movimentos dos trabalhadores e nem do movimento sindical. Nossa
capacidade de acertar estará na capacidade de apostar nas lutas, nas ruas, no
movimento de massas e na crítica, que ultrapasse um pequeno grupo de “déspotas
esclarecidos da esquerda”.
Nesse
momento a principal tarefa é não aceitar as mudanças que estão acontecendo.
O próprio capitalismo faz isso. Já apresentaram um modelo liberal, para não
perderem os dedos, apresentaram o chamado “Estado de Bem Estar Social”,
variaram, através da CEPAL, nos países de capitalismo tardio, ou como um
modelo conservador e autoritário, ou baseado no populismo e na cooptação.
Hoje voltam a um liberalismo tecnológico e gerencial, refinaram o imperialismo,
globalizaram o que já era planetário. E o capitalismo foi buscando novo fôlego
e persistindo. Em todas as grandes mudanças sofreram o risco da alteração da
correlação de forças a nosso favor. Não podemos desistir de derrotar então
nosso inimigo que é o capitalismo. Podemos fazer, se não desaprendemos de
aprender, com um projeto global, com o aprofundamento da luta de massas e com a
arma da crítica e da autocrítica.
Eduardo Alves – Cientista Social e Assessor da CONDSEF