UM BICHINHO NEO

       UM BICHINHO NEO-LIBERAL

 

                                                                           (Obrigado,   Carlos Heitor Cony!)

 

Lemingue - s.m. - (Do escandinavo - lemming) Denominação comum a roedores do gênero Lemmus,  família dos cricetídeos,  dos quais existem três espécies:  Lemmus lemmus,  L. sibiricus e L. amurensis.  Ocorrem nas montanhas ao norte da Europa e Ásia e sua multiplicação acarreta,  às vezes,  migrações maciças,  que compreendem a travessia de rios e fiordes,  com a morte de muitos deles.

Lemingues são  parecidos com um Preá ou Porquinho-da-Índia,  só que maiores.  São figurinhas tão difíceis que não constam no “Aurélio” nem na Enciclopédia Digital da Folha de S.Paulo.  Salvou-nos a Grande Enciclopédia Larousse Cultural,  de onde extraímos o verbete acima.

Esses bichos nórdicos reproduzem-se aos milhões,  e comem prá caramba.  De tempos em tempos,  dá um curto-circuíto no instinto deles e os lemingues saem em disparada,  comendo o que vêem pela frente.  Ficam para trás,  no meio dos campos devastados,  os espécimes mais fracos e doentes.  Embora corram lado a lado,  os ratões não estão nem aí para os seus vizinhos.  Querem mais é comer o que puderem e correr na frente dos outros.

Esse processo de seleção natural,  onde só os mais fortes e preparados sobrevivem,  é muito elogiado e citado como exemplo pelos neo-liberais.  Antigamente,  essa defesa dos espécimes superiores era conhecida como nazi-facismo.  Hoje é um tal de livre mercado.

Ainda bem que o meu irmão Sérgio,  um nobre advogado de 33 anos,  não nasceu lemingue.  É que ele tem,  de nascença,  um probleminha de locomoção,  e se está vivo até hoje é porque não foi deixado à sua própria sorte.  Afinal,  é isso que distingue os homens dos animais:  na nossa espécie,  somos solidários,  os mais fortes cuidam dos mais fracos e lhes provêem condições de sobreviver.

Ah,  vocês querem saber quando os lemingues terminam sua corrida?  Desculpem.  Eles param quando topam pela frente com um daqueles precipícios que existem na Noruega, na Dinamarca e em todo o litoral norte da Europa e da Ásia.  Caem todos lá de cima e se afogam no mar lá embaixo.  Seus congêneres,  os humanos neo-liberais,  terão um fim parecido.  Sua louca corrida,  entretanto,  não terminará em afogamento.  Essa corja vai mesmo é se incinerar,  consumida na fogueira das suas enormes,  das suas imensas,  das suas descomunais vaidades.

 

Jonathan Teixeira