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O PT e o Momento Atual
Governo FHC: Sem iniciativa, mas capaz de resistir
O
Governo consegue enfrentar, apesar do seu aparente imobilismo, os movimentos
sociais e as ações do movimento sindical e do MST. Assim, tem conseguido manter
uma postura firme não negociando, não atendendo as reivindicações, mostrando-se
intransigente na aplicação da pauta do FMI. E isto apesar do momento eleitoral,
em que corre o risco de precipitar graves derrotas dos partidos que o
sustentam. Os principais líderes do PSDB e do PFL já notaram essa tendência e,
de alguma forma, vêm abrindo canais de diálogo, como aconteceu na greve dos
Federais. Temem uma derrota acachapante do governo e um eventual crescimento
dos partidos de esquerda, entre os quais se destaca, apesar de tudo, o PT.
Mesmo
assim, deixam intacta a previsão orçamentária, que reduz os investimentos
sociais, enxuga a folha de pagamento dos trabalhadores e prioriza os encargos
das dívidas. Com todas as mobilizações sociais do período - professores,
servidores, sem terra, etc - e com um baixo índice de aceitação (acumula uma
rejeição que já chegou aos 75%), o Governo conseguiu não abrir mão de nada a
não ser migalhas, rejeitando as principais reivindicações populares.
Ou
seja, abre-se um período de crise política no interior da base governista,
instalando, de alguma forma, o início de uma nova crise de hegemonia. De onde
então o governo tira a força com que consegue barrar as ações populares? Essa
energia sinistramente passiva se apóia ainda na hegemonia do neoliberalismo a
nível internacional. De fato, embora a receita do Consenso de Washington comece
a mostrar de forma muito clara que não resolve os problemas da crise econômica
internacional, por outro lado nem os diversos setores da burguesia dispõem de
qualquer alternativa minimamente articulada, nem o movimento operário se
encontra em condições de se colocar de forma independente na cena política.
Chegamos assim a uma situação semelhante à descrita no 18 Brumário: um
equilíbrio de forças entre as classes fundamentais.
Porque
não há então indicações de saídas "bonapartistas"? Porque o
equilíbrio parece se dar por baixo: não entre duas forças, mas entre duas
fraquezas. Desta forma, nenhuma "terceira força" interna consegue se
posicionar entre os dois contendores principais. Em vez de um governo
bonapartista que se escora simultaneamente nas duas classes em luta, temos um
governo que se apóia simultaneamente na ausência de projeto da burguesia e do
proletariado, mantendo de forma passiva uma política econômica fracassada, mas
para a qual não há alternativas.
Este
equilíbrio tem, é claro, limites. Já os teria se a força hegemônica no governo
estivesse enraizada fora das classes fundamentais. No caso brasileiro, porém, a
equipe de governo não se recruta fora da burguesia, e nem mesmo muito longe do
centro de gravidade econômico da burguesia (ao contrário do que ocorreu durante
os governos Collor e Itamar, ambos bastante periféricos em relação à classe
dominante).
Neste
impasse, ou o Governo recupera a popularidade e avança contra a organização
popular, ou cede, ou consegue aplicar medidas populistas e compensatórias,
reestabilizando momentaneamente a situação, ou o crescimento dos setores
populares tende a aumentar a crise. São hipóteses que não dependem apenas de um
lado. Elas dependem da correlação de forças, da capacidade de luta que as duas
classes fundamentais e seus representantes tenham para atuar nesse momento.
O
Governo do "caçador de marajás" foi o momento para uma rearticulação
do conjunto da burguesia. As teses do Sexto Encontro Nacional do PT deixavam
muito claro a situação das classes dominantes naquele momento quando afirmava
que vivíamos o início de uma crise de regime e que tal dinâmica gerava,
"por sua vez, uma crise de valores das classes dominantes, que é um componente
importante do desenvolvimento de uma crise de hegemonia política".
Com
a preocupação correta de melhor entender o momento político que vivemos e sem
cair no economicismo clássico, as resoluções do Sexto Encontro Nacional do PT
souberam aprofundar a discussão sobre a crise a apontar suas dimensões. Naquela
época três elementos se destacavam:
a
"fragmentação das forças dos partidos burgueses, o que, inclusive,
dificultou o esforço de forjar uma candidatura capaz de unificar o chamado
centro e a direita";
a
"incapacidade da nova Constituição de se afirmar como peça de legitimação
da nova ordem política, como elemento de contenção das lutas sociais";
a
"criação de uma dinâmica crescentemente polarizada na luta de classes, que
exerce uma contínua pressão sobre as instituições e as leis, e tem
inviabilizado qualquer tentativa de pacto social".
De
um lado a burguesia soube resolver, ainda que provisoriamente, seus problemas.
De outro lado, não há mais uma polarização crescente na luta de classes por
conta, principalmente, do PT e da CUT, que são as principais representações da
classe trabalhadora no Brasil. Essas são duas mudanças importantes deste
momento em relação à conjuntura anterior, em que a classe trabalhadora se
fortalecia: a hesitação e o colaboracionismo hegemonizaram as organizações,
impedindo uma ação dirigente que transforme a insatisfação com o Governo em um
movimento de massas. Daí o fim do afluxo das classes populares.
Certamente
as deliberações do II Congresso do PT ajudaram muito. Não armando a classe
trabalhadora com uma bandeira firme de combate a FHC e ao FMI trouxe,
aprofundaram a imobilidade. Assim, enquanto cresce a crise no interior da
classe dominante, agravada pela fragilidade do plano real e pela submissão ao
capital internacional, representado pelo FMI, não há uma direção de classe com
capacidade hegemônica, militante e combativa como em 89. Reverter essa situação
é muito mais complicado, demandando uma capacidade de luta muito superior em
condições muito menos favoráveis.
As
organizações de classe, com exceção do MST, estão abatidas, apáticas,
desarmadas para o confronto. Partindo de um grau considerável de burocratismo,
a falta de perspectiva, aprofundada pela ausência de análises consistentes do
momento político, tende a aprofundar a burocratização dos organismos de classe.
A barbárie se apresenta para a classe como tendência social do aprofundamento
da crise, mas se reflete no seu interior como degeneração das lideranças e
organizações, seguindo duas rotas possíveis: a cooptação das direções combativas ou a tomada das
organizações pelos setores colaboracionistas. Para combater essa tendência, o
caminho é um processo de politização intensa, que só pode crescer e prosperar
através do movimento de massas, da luta de classes real e nas suas
manifestações sociais .
Nestas
condições, a aliança PSDB/PFL não só hegemonizou as classes dominantes,
atraindo inclusive setores do PMDB e do PPB, como conseguiu fazer com que
governadores e prefeitos que, a priori, deveriam ser representações claras de
oposição ao projeto neoliberal, vacilassem e implementassem uma política muito
parecida. Exemplos claros disso foram os governos do PT do Espírito Santo e
Brasília e agora o Governo do PDT do Rio de Janeiro. Isso demonstra o quanto a
política de alianças aprovada no II Congresso é equivocada e incapaz de nortear
a disputa eleitoral que se abre neste período. Com um projeto fragilizado, num
momento de descenso, os setores explorados não podem se dar o luxo de querer
atrair o centro com uma política vacilante e comprometida. Isso apenas confunde
e abre brechas para uma direitização crescente.
Os
indicadores econômicos, por outro lado, apontam para a possibilidade de uma
discreta retomada nos próximos meses. Neste caso, a simples redução do receio
do desemprego pode colaborar para transformar rapidamente o descontentamento
passivo, quase desesperado, da maioria da população, em acessos súbitos de
revolta mais ou menos espontânea e desorganizada. Numa conjuntura assim, o PT
parece se encaminhar para ajudar ativamente o governo a reprimir a população,
através de pronunciamentos dúbios e vacilantes cujo conteúdo real é sufocar a
luta de classes para não atrapalhar viabilidades eleitorais.
Entretanto,
como esse não é o caso da economia internacional - o crescimento americano
começa a dar sinais de esgotamento - e como não há nenhuma indicação de que os
diversos pontos de estrangulamento - transportes, comunicações, energia - que
dificultam o crescimento econômico brasileiro tenham sido removidos ou
minorados (pelo contrário!), qualquer retomada tende a ser de curto fôlego, e a
classe trabalhadora, manietada pela irresponsabilidade de suas lideranças,
ficará à mercê das contra-ofensivas da burguesia.
Em
vários lugares, as alianças do PT estão sendo fechadas com o PFL, PPB, PMDB e
PSDB, ou seja, com as principais representações da burguesia. Uma coisa são as
realidades locais que abrem possibilidade de alianças com partidos cuja ligação
com as classes dominantes é periférica. Esse, por exemplo, pode ser o caso do PPS
ou do PDT, ou de partidos pequenos sem muita expressão e enraizamento social.
Outra coisa são os partidos hegemônicos que disputam a representação da
burguesia no interior da sociedade, e que constituem os instrumentos centrais
da luta da classe dominante contra os explorados.
Ou
seja, a política de alianças deliberada no II Congresso não é insuficiente, ela
é errada. É necessário superá-la para uma ação mais afirmativa no sentido da
mudança da correlação de forças. Hoje, dada a realidade do PT, temos que
começar a fazer tal superação na própria luta de classes, acumulando forças
para mudarmos a posição do Partido.
De
qualquer forma, as eleições locais são um elemento fundamental nesse momento.
Tanto para balizar a ação das classes dominantes, quanto para apontar a
formação da nova conjuntura que vem pela frente. Já apontamos que é impossível
haver vitória eleitoral com uma derrota política.
Outras
combinações são possíveis, nesse sentido. Como há um relativo crescimento do
movimento e um enfraquecimento do governo, o PT tende a ter vitórias parciais
no processo eleitoral, o que pode fortalece-lo ou ampliar sua tendência de
adaptação à ordem estabelecida. Os casos do Espírito Santo, Brasília,
Pernambuco, Rio e Amapá mostram que a gravidade do Estado desfigura o PT,
expondo-o a crises cada vez mais violentas.
Tudo
isto, num momento em que não há setores da burguesia capazes de apontar
alternativas conseqüentes, e na medida em que a população se acostumou a ver no
PT a principal fonte de contestação e sinalização de novas perspectivas,
reforça a apatia, o imobilismo e o desespero, criando a impressão de que o
neoliberalismo é quase eterno, inesgotável. Apatia que, por sua vez, serve de
álibi para a retranca satisfeita dos setores adaptados do partido. Evidentemente,
um partido dirigente tem como tarefa fundamental romper esta apatia, apontando
o caminho da mobilização e da luta.
Urge
então, neste momento, a necessidade de contrapor as eleições com um instrumento
que atinja o centro da crise e tenha capacidade para tornar-se um grande
movimento de massas. Nesse sentido surgem duas frentes de atuação:
1.
uma atuação clara no CONCUT, fortalecendo e unificando o bloco de esquerda,
buscando arrancar a construção da greve geral ainda para esse ano;
2.
a participação efetiva no movimento contra o pagamento da dívida externa.
Se
o primeiro caso tende ainda a ficar nos limites da ação sindical, o segundo,
através do plebiscito da dívida, tem condições de se tornar uma grande ação de
mobilização nacional contra o FMI e o Governo de FHC. Aí poderemos acumular
forças para retomar as bandeiras derrotadas no II Congresso, não mais apenas
como propostas escritas em documentos, mas como bandeiras populares que podem
aprofundar o descrédito popular do Governo e apontar a necessidade de sua
substituição por outro, democrático e popular.
Por
isto mesmo, é indispensável que o trabalho de construção da greve geral rompa
com a tradicional burocratice que amarra o movimento a uma pauta inchada,
setorizada e sem apelo, desarma-o de antemão ao transformá-lo numa paralisação
inócua e o reduz, na prática, a uma greve dos setores de transporte. Para
evitar isto, é necessário trabalhar para centrar o movimento, politicamente, em
torno de alguns eixos politizado e centrais, de fácil compreensão e capazes de
unificar politicamente os trabalhadores, hegemonizando as oposições e acuando o
governo. Alguns exemplos poderiam ser:
suspensão
imediata do pagamento da dívida,
cessação
de todas as privatizações,
aumento
imediato do salário mínimo,
aumento
da massa salarial na LDO,
reforma
agrária,
defesa
do Serviço Público.
A
greve dos Federais, que era um movimento isolado de uma categoria específica,
conseguiu articular um campo de alianças potente, que lhe permitiu contabilizar
algumas vitórias políticas. As condições do momento político são favoráveis,
pela indignação crescente das camadas populares e das diversas organizações
democráticas, populares e sindicais, para construir um grande movimento social
contra a política, de ordem internacional, imposta ao país. Se é necessário
cada vez mais atacar o capitalismo e suas mazelas, não podemos perder de vista
que isto será fatalmente representado por um ataque progressivo e politizado
contra o Governo FHC e contra o FMI. Assim se torna possível transformar a
crise do governo em crise de regime e abrir caminho para uma alteração
significativa da correlação de forças. As tendências e as possibilidades
existem, mas sabemos que não é inevitável que ocorram. Para que se realizem, é
preciso unificar a esquerda petista, a esquerda da CUT, a esquerda
social/política (PT, PCdoB, PSTU, PSB, atraindo o PDT ou parcela) e os
trabalhadores nessa luta.
Aprofundar a Crise do Governo Roriz
Já
no Distrito Federal vivemos o aprofundamento da crise do Governo Roriz, que dá
sinais de desespero. A cassação de Luiz Estevão foi a maior derrota política
que impusemos a Roriz e deve ser aprofundada durante o próximo período.
Roriz
mescla populismo a fascismo, autoritarismo a demagogia, e busca enfraquecer o
PT, seu principal adversário político, com os olhos nas eleições futuras. Temos
que mudar essa situação. A atitude de expulsar trabalhadores que estavam
protestando em seus comícios e a demonstração clara de raiva, levaram,
acertadamente o PT, junto com o ex-governador, entrar na justiça contra o seu
Governo. Entretanto, isso é muito pouco.
O
PT do DF tem se mostrado incapaz, em todos os sentidos, de apresentar uma
agenda de luta que coloque os trabalhadores nas ruas, promovendo atividades de
massas que façam crescer a política democrática. O Diretório atual é fraco em
política, frágil em representação, inoperante em organização. Isso deve mudar,
para que sejam criadas as condições de alteração de forças no DF. Na verdade, o
acúmulo deixado pelo Governo Cristóvam é prejudicial ao crescimento de uma
política de esquerda e joga contra o patrimônio dos trabalhadores em todos os
sentidos, o que é agravado pelo seguidismo da maioria da Direção Regional.
Na
verdade, os grandes movimentos que abalaram o DF nesses últimos tempos foram a
greve da NOVACAP e a expulsão de Estevão do Senado. Fora disso, os movimentos
ocorridos foram de cunho nacional, centrados e dirigidos para o Governo
Federal. Cabe a nós agora abalar essa ordem. Isso exige, necessariamente,
mudanças na Câmara e no PT.
Se
o Diretório Regional tivesse pernas e políticas, mobilizasse a militância,
poderia ter um papel chave nas eleições que estarão ocorrendo no Entorno,
acompanhando, politizando, contribuindo na direção das eleições locais,
reforçando o embate ao conservadorismo que impera nessas cidades. Mas não há
condições reais de isto ocorrer, até porque o mosaico de alianças montado no
Entorno não estimula a militância.
Por
outro lado, se unificarmos os sindicatos, aproveitarmos a liderança da bancada
e chamarmos os movimentos populares, temos possibilidade de forçar o partido
para uma ação contundente no movimento da dívida externa. Assim sendo, esse
movimento ganha um papel central no momento político no DF (principalmente por
não contarmos com eleições municipais).
Aqui,
nossa tarefa é ampliar a oposição a Roriz, ligando seu governo a FHC e
unificando a crítica com o movimento pelo não pagamento da dívida. É
necessário, para não perder o "time" da cassação, ligar Luiz Estevão
ao Governador, denunciando as armações dos seus principais deputados. Para isso
é importante saber combinar as denúncias com ações de massas. Nesse momento os
deputados do PT devem se tornar fiscalizadores e chamar a população para o
debate constante pela democratização do Distrito Federal.
Seria
errado achar que devemos derrotar o PMDB nas urnas. Isso seria um equivoco, um
desvio eleitoral que acabaria criando condições para cometermos erros parecidos
com os do passado. O que devemos fazer é impor uma derrota política, para que
as urnas, nas próximas eleições, reflitam as conseqüências das ações de hoje.
Essa é nossa tarefa.
Durante
quatro anos de governo, não impusemos uma derrota política ao modelo de poder
imposto no Planalto Central. Agora devemos mudar nossa ordem de prioridades. A
conjuntura é favorável a um acúmulo de forças diferenciado no interior do
partido. Chamar agora o Partido para a ação de massas, aprofundar a organização
dos trabalhadores, acabará por reunir forças no nosso campo, criando condições
para a hegemonia de uma política de esquerda no PT e na sociedade. O que se
coloca então como pauta para esse momento é:
a)
intensificar a oposição a Roriz, fazendo denúncias através da bancada popular e
chamando os setores organizados para discutir junto com a população
alternativas locais;
b)
priorizar o movimento pelo não pagamento da dívida ligando-o à oposição a Roriz
e ao combate à FHC;
c)
chamar ações de massas em defesa das classes populares,
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d)
isolar o GDF, questionando a capacidade política do grupo do governador para
dirigir a cidade, apontando as contínuas ameaças à democracia e o envolvimento
cada vez mais evidente da cúpula do governo local com as negociatas escusas,
particularmente nas áreas de política territorial (escândalo irmãos Passos) e
de obras públicas (superfaturamento da terceira ponte).
Assim,
a conjuntura abre a possibilidade de dar início a um movimento que aponta para
o impeachment de Roriz; o flanco aberto pela cassação de Estevão deve ser
aproveitado, e o seu eixo deve ser centrado na política, e não numa linha
piegas, como tem sido tentado, em convergência com o movimento Basta! Eu quero
Paz!, que só pode levar ou à retomada da iniciativa política por parte do
Governador, ou à hegemonização do movimento pela burguesia, que já começa,
aliás, a questionar a própria autonomia política do DF (esquecendo,
convenientemente, que Roriz começou sua carreira como governador nomeado).