\n'; document.write(barra); } } changePage();
Três Desafios para as Organizações de Trabalhadores no Serviço Público
1.
Introdução
Nesse
momento de “crises”, de “crise da crise do movimento sindical”[1],
há alguns desafios comuns que não diferenciam categoria e especificidades. A
capacidade de unificar a classe trabalhadora em uma mesma luta que imponha uma
derrota global ao modelo, já em processo de apodrecimento, chamado de
neoliberal, é com certeza um desafio de todas as entidades sindicais
brasileiras. Certamente, não há
uma ilusão de que uma entidade ligada ao modelo pelego, entreguista, seguidista
e conservador de outras centrais, como a Força Sindical por exemplo, possa
cumprir tal papel. Deveria ser uma obviedade que somente as entidades CUTistas
conseguiriam cumprir tal papel. Porém, isso
não está acontecendo. Na verdade, o que está ocorrendo é uma incapacidade de
resposta à altura ao capitalismo. O modelo da globalização é mais um momento
da dominação capitalista imposta ao mundo, em proporções distintas é claro.
Com políticas similares e efeitos desproporcionais, o imperialismo atual
empurra os países de capitalismo tardio para um lamento muito superior. O grau
de miséria, de barbárie, de degeneração humana a que os trabalhadores estão
submetidos formam novas realidades no globo terrestre, que somente os donos do
mundo, por enquanto, conseguem ganhar.
O
chamado neoliberalismo é comprometido em seu discurso e sua prática. Se alguns
acham pouco a razão de que esse é mais um modelo de dominação capitalista e,
como todos que a burguesia inventar, deve ser categoricamente combatido pelas
organizações dos trabalhadores, ainda, por si só, carrega um discurso falso,
inviável, composto, aí sim, por uma teoria anacrônica. A idéia de que esse
modelo representa um tipo de capitalismo irrestrito, que só seria possível com
o desenvolvimento do século XX, representa uma dupla incapacidade de se
realizar uma análise rigorosa sobre a história. Incapaz por não observar o
retorno às idéias básicas superadas pelo próprio capital, para responder a
crise criada dentro do modelo de
bem estar social nos países desenvolvidos. Incapaz pela destruição que faz
com os povos, com a liberdade, com a autodeterminação, com o trabalho e com o
ser humano. Na realidade, “critica-se o marxismo por ser uma teoria do século
XIX, mas os ideólogos burgueses, em qualquer dos casos, apelam ao liberalismo
do século XVIII, uma teoria ainda mais antiga”[2].
A
crítica do ardil liberal ao Marxismo representada por Weber, Croce, Popper ou
mesmo Bobbio, não respondem como a volta aos conceitos marxistas, nesse momento
de crise, vem sendo promovida por vários economistas que nunca foram adeptos
dessa filosofia. Com certeza, a
concepção de Marx não se limitou à filosofia, à economia ou à política,
mas conseguiu construir uma teoria da exploração, da luta de classes, que
armou toda a classe trabalhadora. E, cada vez mais, parece que as organizações
da classe (e não apenas suas direções) estão se esquecendo disso.
É
nesse mesmo período de crise que alguns rápidos “pensadores” decidem que a
mais valia já não existe, que alguns modelos de organização estão
superados, que a exploração ganha novas dimensões, sem ao menos identificar
as mudanças que de fato ocorrem no mundo do trabalho. Ou seja, o que nos lembra
bem Ricardo Antunes quando fala das tendências desse modelo e afirma que não há
uma diminuição da classe que vive do seu próprio trabalho. Na verdade, “há
uma significativa heterogeneização e complexificação da classe que vive do
trabalho, dada pela subproletarização do trabalho, presente nas formas de
trabalho precário, parcial, etc”[3].
Certamente, essa identificação não retira o conceito de luta de classes da
ordem do dia de nossas análises, ao contrário, o coloca no centro, demandando
uma análise histórica do processo de dominação do capital. E nesse mesmo
modelo está também situada a desregulamentação das legislações
trabalhistas, dos direitos, das conquistas, que fizeram avançar a humanidade,
através da luta dos trabalhadores.
Nesse
período, não podemos deixar de dizer que se necessita de um resgate ideológico
e teórico das concepções que balizaram a luta operária durante mais de um século.
A volta ao marxismo, com a necessidade de construir uma teoria que se aproxime
de um Estado com liberdades de direitos e funcionamento de instituições políticas
como o parlamento, é fundamental. Se é verdade que os trabalhadores do Brasil,
que é um país de capitalismo tardio, assim como os de outras nações de mesma
natureza e principalmente os dos países avançados, não enfrentam um Estado
Czarista; é verdade também que não enfrentam um Estado democrático, algo que
seria impossível. Pequenas respostas ou adaptações, que circulam no modelo
dos CCQ’s (do Japão ou dos países avançados), o toyotismo, misturado ou não
com o fordismo-taylorismo, trazem, no seu interior, propostas sedutoras de relação
entre patrão e empregado que não ajudam no movimento. Ou as câmaras
setoriais, ou as novidades dos conselhos governamentais, são todos processos de
uma mesma tendência que acabam, também por um refluxo do movimento de massas e
por uma dispersão na luta de classes, adaptando mais o movimento. Tal crise,
assola a melhor parte do sindicalismo, a parte cutista, a parcela que pode ser
capaz de gerar uma alternativa real de luta contra
o sistema, contra o regime, contra o modelo imposto pelo atual governo,
forjando uma alternativa democrática, popular, classista e anti-capitalista.
Tal saída só pode ser respaldada pelo movimento vivo das massas, com lutas e
organizações populares, onde destacam-se os sindicatos.
2.
As especificidades no setor público
Certamente
que o movimento dos trabalhadores no serviço público não está isento de tais
problemas. Longe da isenção, vive tais problemas ainda mais acentuadas pela
capacidade que teve, principalmente o governo de FHC, de impor uma série de
mudanças, desregulamentações, reformas. Pior, tais problemas se agravam por não
se revelarem para o conjunto da classe trabalhadora como parte de si própria.
Isso, muito bem explorado pelo governo, aprofundou os problemas dos servidores públicos
em todos os níveis: nas relações de trabalho, nas condições de vida, na
incapacidade de identificar alternativas reais para sair do impasse em que
vivem. Isso mostra duas questões importantes: é necessário potencializar e
ampliar as organizações de trabalhadores desse setor, realizando um contato
mais cotidiano com o conjunto da classe; é necessário construir o papel dos
serviços públicos para um projeto democrático, solidário e anti-capitalista
de desenvolvimento. Daí duas tarefas centrais que demanda o setor.
Nem
o capitalismo, nem o trabalho industrial, encontram no Brasil um grau de
desenvolvimento como nos países de ponta do capitalismo. Sua própria condição
histórica apresenta uma realidade conservadora e um Estado patrimonialista e
patriarcal que sofreu toda a influência da colonização e das Capitanias
Hereditárias. Mas esse modelo, que foi persistindo, ganhou forma burguesa em 30
e, durante todos os outros períodos de diferenciadas ditaduras e pequenos
hiatos de abertura, foi se reafirmando. Tal modelo, tão ultrapassado e atrasado
quanto nossa formação histórica, acabou servindo como a base de sustentação
do discurso da própria classe dominante, principal dirigente e escudeiro dessa
situação. Todas as mudanças promovidas pelo governo de FHC se deram com base
na argumentação dos direitos sociais, da justiça de condições entre
trabalhadores da iniciativa privada em relação aos do serviço público e da
modernização e democratização do Estado.
Vamos
buscar ampliar as redondezas do nosso olhar crítico. À primeira vista, temos a
destruição do RJU, o fechamento de postos de trabalho, a redução do número
de servidores públicos, restrições no Serviço Público, privatizações das
estatais, privatização paulatina e seqüencial do próprio serviço público,
desregulamentação de direitos e formulações de novas leis para legalizar o
absurdo. Sem dúvida, a oposição
ferrenha e radical é uma alternativa real, necessária, viável e indiscutível.
Apenas é insuficiente. Não consegue, como vimos nesse período último, se
consolidar como uma forma de luta que dê fôlego e gere conquistas.
Tal
modelo aplicado hoje no Brasil é um modelo para toda as unidades da Federação.
Embora hoje o laboratório maior seja nos Federais e entre estes, em alguns
setores (como Saúde, Meio Ambiente, Educação) que sofrem o impacto mais do
que outros, não há qualquer tipo de restrição. São ajustes, pelos quais a
classe trabalhadora, toda ela, vai pagar muito caro. Esse modo de
(sub)desenvolvimento, que faz incorporar uma política para a miséria, aberta
para a iniciativa privada, onde a modernidade é a precarização dos serviços,
dos contratos trabalhistas e dos direitos dos trabalhadores, pretende se
alastrar por todo o território. Não apenas para valer leis. Mas,
principalmente, para implementar uma concepção imposta pelo imperialismo
dominante.
O
cinismo de Luiz Carlos Bresser de
dizer que a Reforma do Estado, aplicada pelo seu presidente, é para a Cidadania
é, na verdade, um (des)serviço ao aprofundamento do tema e um serviço à
falsificação das posições. Sabemos bem que tal reforma está longe de ser a
serviço da cidadania ou mesmo da maioria. Mas nossa atenção tem que ir mais
adiante do que somente identificar o cinismo desse administrador de super
mercados. Como bom escudeiro das classes dominantes, não poderia identificar
que a crise que chega ao Brasil potencializada, pelas próprias características
históricas do país, é a crise do capital. No lugar disso escolhe um outro
pseudônimo para crise, chamando de crise burocrática. Onde um dos elementos
ressaltados é a incapacidade de implementar o modelo de “bem estar social”.
Nenhum país de capitalismo tardio viveu tal modelo, e o conservadorismo, a
dependência e o populismo que impregnam a história desse país não lhe
permitiram vivê-lo. O clímax de tal análise talvez seja exposto por essa
parte do texto: “Se houve uma demora considerável para que se compreendesse a
natureza da crise dos anos 80 como uma crise do Estado, maior ainda foi o tempo
necessário para se perceber o papel estratégico da administração pública na
configuração dessa crise. Toda a atenção foi dada, não apenas no Brasil,
mas em todo o mundo, à privatização, à abertura comercial, à reforma tributária
e da previdência social, e às reformas políticas”[4].
Em
uma narrativa de vários exemplos da gestão gerencial, grande alternativa para
a crise brasileira, acabam sobrando dois grandes modelos: o dos EUA e o da
Inglaterra. Ou seja, os carros de ponta do modelo designado de neoliberal. Isso
sem contar com a hegemonia imperialista que os EUA têm em relação aos outros
países desenvolvidos. Não é à
toa que os consultores utilizados para pensar a implementação da “fórmula
salvadora” no Brasil venham desses mesmos locais. Acabou o nepotismo? Acabou a
concentração de poder? Acabou o fisiologismo? Acabou o populismo? Melhor,
foram dados passos concretos e acumulativos para esses aspectos do Estado no
Brasil se enfraquecerem ou serem superados? Certamente não, a começar pela
declarada política implementada pelo chefe do Estado e do Governo, pelo menos
formalmente, o presidente da república.
As
mudanças foram profundas. Muitas dessas mudanças, na sua organização, contêm,
na verdade os mesmos modelos de reestruturação produtiva imposto pelo modo de
dominação capitalista atual. E nesse caminho, uma sociedade miserável,
penalizada pelas absurdas concentrações de terra e capital de um lado e um nível
insuportável de miséria e desemprego, só pode aprofundar suas mazelas no
lugar de superá-las. Os trabalhadores do Serviço Público são o exemplo no
Brasil para a implementação de um modelo que se esgota no mundo e que é
impossível de ser aplicado em condições similares a que foram aplicados em países
que hoje capengam.
3.
Entre outras, três tarefas para os servidores
Tudo
indica que as organizações sindicais dos servidores possuem uma grande tarefa
pela frente. A primeira, não se diferencia da colocada para todas as organizações
classistas. É necessário recuperar a capacidade de mobilização, apostar nos
movimentos de massas e para isso, colar na luta de classes elevando as respostas
em um patamar superior das de hoje. Certamente que conseguir unificar a luta,
remontar a organização é fundamental. Para os trabalhadores está colocado em
risco os empregos, para os explorados em geral está em risco a sobrevivência e
a dignidade e para a população sobra a indicação da barbárie, que já é um
espectro que ronda o mundo. Ou seja, o desemprego, a miséria, ronda hoje a vida
de todos os trabalhadores e a barbárie, ameaça toda a sociedade.
No
caso das organizações de trabalhadores no serviço público os problemas vão
para além da demissão dos servidores, o que já seria muito na falta de
perspectiva de emprego e desenvolvimento que tem o Brasil. Está no risco
constante de acabar o atendimento mínimo à população para fazer a burguesia
assegurar seu lucro. O repasse já tanto falado para o exterior para o pagamento
da dívida externa é um motivo óbvio disso, mas que o governo sabe que não
resolve. Nem o teto de 50% estipulado pela Lei Camata acalma o presidente, que
pretende demitir os servidores mesmo sabendo que este teto ainda não foi alcançado.
Os 5 anos sem reajustes, rebaixaram as condições de vida de todos os
servidores públicos e forçou o fechamento de várias iniciativas de pequenos
produtores, comerciantes, empresários em geral. Portanto, é óbvio que a luta
pelas conquistas trabalhistas, pelo reajuste salarial, etc, está na ordem do
dia. Mas, mesmo assim, tais lutas precisam fazer o vínculo com o conjunto dos
trabalhadores, com a qualificação do serviço, com o modelo econômico, com a
recessão. Fazer a ligação entre a política chamada “corporativa” e a de
estabilidade econômica e social é uma tarefa central desse movimento. Não
porque os trabalhadores não tenham legitimidade para reivindicar seus direitos,
sejam eles quais forem. Mas porque a correlação de forças exige um acúmulo
político, uma unidade, uma compreensão, a busca da formação de um consenso
por um projeto voltado para a maioria da população.
O
terceiro desafio, que é central para esse movimento, é a construção de uma
proposta política que situe o papel dos serviços públicos em um projeto
classista de desenvolvimento democrático, solidário e independente. Não cabe
aqui e agora alinhavar os elementos centrais de tal proposta. Cabe sim, agora,
convencer da importância tal tarefa para o movimento dos servidores e para o
conjunto dos trabalhadores. Provavelmente que isso tem repercussão. As organizações
sofreram impactos de uma mudança necessária para cumprir tal papel. Será
necessário redimencionar as formas que unificam a luta de todos os servidores e
potencializar a unidade. A busca da formulação de um projeto com esse fôlego
envolve os dirigentes, que são, em potencial, intelectuais orgânicos do
movimento.
Assessor
da CONDSEF e Cientista Social
[1]. Título do texto publicado pelo autor no Jornal Público (jornal do SINTRASEF-RJ), janeiro de 2000.
[2]. Gorender, Jacob; Marcino e Liberatore; Editora Ática; 1992
[3]. Antunes, Ricardo; Trabalho, Reestruturação Produtiva e Algumas repercussões no Sindicalismo Brasileiro; texto publicado no livro Neoliberalismo, Trabalho e Sindicatos; Boitempo Editorial; 1999 (4o Edição).
[4]. Pereira, Luiz Carlos Bresser; Reforma do Estado para a Cidadania; ENAP; 1998