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Introdução*
Estado
e Desenvolvimento no Brasil
Eduardo
Alves**
As
Bases da nossa Concepção
O
que está acontecendo com o Estado brasileiro? As mudanças que aparecem,
principalmente, a partir do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, vem
levantando essas questões e recoloca o debate como um dos pontos centrais de
nossa reflexão. Mas, certamente, essas mudanças estão engajadas em uma concepção
de mundo, ideologicamente definidas, e representam um projeto de desenvolvimento
para o Brasil.
Não
nos adianta, então, pensar tais mudanças sem levar em consideração para onde
o Brasil está indo. Temos que construir como foco central, o que se avizinha
para o nosso País. Nesse sentido, o projeto que está sendo aplicado, mesmo que
não exista no papel, está forçando o Brasil a entrar em um ciclo diferenciado
do que foi vivido nos últimos 60 anos.
CONCEITOS
- Mas temos que ter clareza de alguns conceitos fundamentais, antes de entrar
nesse debate, e situar, na linguagem da chamada política moderna, o papel do
Estado e da sociedade civil.
Já
dizia o velho Marx que quando começamos a estudar uma determinada sociedade, do
ponto de vista da economia política, e iniciamos pela população, temos uma
visão caótica dessa sociedade. Essa observação é importante, pois já
sabemos que a população é uma abstração que pouco contribui com uma análise
engajada.
Aparece,
então, o conceito de sociedade civil, separando-a da sociedade política. Nesse
caso, a sociedade política seria o Estado. Mas a sociedade civil nos aparece
como algo tão abstrato como a população.
Por
outro lado, tal separação pode, de forma equivocada, nos levar a pensar que
existe algum tipo de contradição entre sociedade civil e sociedade política.
O que seria um outro erro. Não há contradições entre organizações estatais
e não-estatais. Isso é um equívoco, pois novamente cairíamos em uma abstração
que não considera a sociedade determinada historicamente, ou seja, a sociedade
capitalista. Portanto, temos que falar de classes sociais. Temos que falar de
projetos de classe e começar a desvendar algumas armadilhas que nos são
apresentadas para justificar atitudes, pretensamente tomadas a favor dos excluídos
ou do conjunto da população.
IDEOLOGIAS
- Todo discurso do governo FHC foi no sentido de colocar o conjunto da população
acima de apenas uma categoria de privilegiados, nesse caso os servidores públicos.
Que para a população contar com melhores serviços é necessária a competição.
Com isso, o governo busca que as contradições apareçam entre trabalhadores de
várias categorias, ocultando a concepção fundamental que é a de classe.
Se
o discurso de interesses corporativos consegue servir como uma retícula que
prejudica a visão da verdadeira contradição social, as pessoas que compõem
essa classe, agora como população, acabam agindo por princípios baseados
nesse ponto de vista, nessa ideologia.
Mas
que ideologia é essa? Não é outra senão a das classes dominantes, dos
capitalistas. Uma ideologia que não atravessa simplesmente o Estado, mas também
o conjunto da chamada sociedade civil, no momento que entendemos que essa
sociedade nada é, se não está divida entre as classes e os interesses de
classe.
Mas
é obvio que o elemento ideológico contribui para embasar essa separação,
apresentando antinomias mais importantes que aparecem para o conjunto da
sociedade. Nesse momento, a apelação do discurso, que circula entre o
liberalismo e o fascismo, dos interesses comuns, se apoderam das pessoas,
fazendo com que suas atitudes sejam, pelo menos aparentemente, comuns a todos os
seguimentos. Não é à-toa que esses períodos são férteis para germinarem
proposições de pactos sociais, em busca de uma paralisação dos setores
ligados aos trabalhadores, tentando controlar as ações sociais, frutos da luta
de classes.
DOMINAÇÃO
- Portanto, o Estado não assume um papel central de arena, mas de dirigente. O
Estado aparece, então, e vai continuar aparecendo, como um instrumento de
dominação de uma classe sobre a outra. O Estado não é o governo central, ou
os governos locais, estaduais ou municipais; o Estado não são as diversas
representações parlamentares; o Estado não são as escolas públicas, que vão
do ensino básico ao universitário; o Estado não é o hospital público; o
Estado não são os tribunais; o Estado não é o Exército e a polícia; o
Estado é o conjunto desses aparelhos, mas é, fundamentalmente, um conceito que
permite que tenhamos clareza do seu papel, onde o situa na principal contradição
que existe na sociedade determinada, e garante a reprodução da dominação da
mesma. Portanto, o Estado não é outro, senão um instrumento de dominação
que a burguesia tem sobre a classe trabalhadora.
Se
faz necessário, então, que façamos algumas distinções entre o conceito de
Estado e os aparelhos que o constrói como tal. Inclusive o elemento da
ideologia. Nesse sentido, a ideologia oferece uma perspectiva de disputa também
no interior do Estado.
Mas
se temos clareza do seu papel histórico e do papel determinado na história
dentro desse modo de produção que vivemos, conseguimos mediar a disputa de
hegemonia, com a consciência necessária de que nosso ponto de apoio só pode
estar onde está a classe que representamos. Ou seja, tanto as disputas dos
modelos de educação, do papel da escola, dos serviços públicos, no
Parlamento, em governos etc., só podem se completar em uma disputa de hegemonia
se temos a clareza que o Estado é uma representação de classe.
Ou
seja, como um instrumento da burguesia, da classe dominante nessa sociedade, seu
papel central é manter a dominação de classes, a propriedade privada e a
exploração do homem pelo homem, construída nas relações sociais de produção,
na apropriação da mais-valia.
A
Formação do Estado no Brasil
Digamos
que nossa concepção tem que ser situada dentro da formação do Estado
brasileiro para pensarmos melhor a correlação de forças. Não podemos negar
que o Estado está articulado, tendo sempre um papel central nas sociedades
modernas. Isso aconteceu muito pelo uso da força, mas também pela ação
dirigente nos processos de desenvolvimento.
Não
podemos negar que a iniciativa do chamado liberalismo ou mesmo do Estado de
Bem-Estar Social tenha partido do Estado capitalista, em uma fase do seu
desenvolvimento. Todo o mundo capitalista desenvolvido passou por etapas mais ou
menos aprofundada por esses modelos de dominação burguesa, que tinham formas
próprias de enfrentar os problemas sociais causados pelo próprio capitalismo.
FORÇAS
ARMADAS - No fundamental, a idéia liberal partia do pressuposto de separar o
Estado da economia, sobrando para o primeiro, basicamente, o controle e o uso da
força pelo Exército (ou Forças Armadas, que é na verdade a primeira fase do
Estado, voltado para a guerra e a disputa dos territórios) e pela polícia.
Nesse
caso, seriam as chamadas “leis de mercado” que regulariam a economia; ao
Estado cabe apenas garantir a livre-concorrência. Assim como o liberalismo também
era a ideologia central contra o absolutismo, influenciando as revoluções
francesa e inglesa. As bandeiras burguesas eram a mais ampla liberdade
individual, a democracia representativa com separação e independência dos três
poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), o direito inalienável da
propriedade e a livre iniciativa da concorrência como direito básico do indivíduo
e do coletivo para desenvolver o progresso social.
Somente
nesse caso, defendiam os teóricos dessa visão, o homem pode desenvolver seu
desejo natural de maximização do lucro sem a interferência do Estado e dos
grupos sociais. Como podemos identificar, além dos muitos elementos compatíveis
com o modelo de FHC, em todos os modelos que o capitalismo assume, o lucro e a
propriedade privada são pressupostos fundamentais. Foi esse primeiro modelo de
desenvolvimento que tomou os Estados desenvolvidos.
Logo
após a grande crise mundial da primeira guerra, o que se construiu foi o
chamado Estado de Bem-Estar Social. Em contraposição à planificação, e para
superar os problemas que o liberalismo já não dava mais conta, surgiu um
Estado que intervinha na sociedade para amenizar os problemas sociais
existentes, fruto do desenvolvimento do capitalismo.
DIREITOS
- Nesse caso, uma série de direitos e proteções ao povo, aos trabalhadores,
foram criados, como a previdência, educação, moradia, saúde,
seguro-desemprego, etc, fortalecendo a ilusão de que o objetivo era formar o
pleno emprego nas sociedades capitalistas. Este Estado mantém o elemento
central da dominação de classe e da livre empresa, ou seja, a defesa da
propriedade privada dos meios de produção.
Não
chega a ser uma política de estatização, mas a clareza de que ao Estado
caberia uma política firme de ajuste fiscal para desenvolver os chamados
programas sociais. Na verdade, nenhum dos dois modelos foram aplicados
plenamente no Brasil, por sua realidade de capitalismo tardio. Esses modelos
conseguiram uma intervenção chave nos países centrais que controlam o
imperialismo no mundo.
No
Brasil, o Estado trouxe um outro conteúdo, onde economistas marginalistas e
liberais se articularam para um protecionismo impregnado de conservadorismo. Mas
foi essa formação que gerou um certo grau de desenvolvimento. Digamos que essa
formação conservadora, influenciada pelas capitanias hereditárias, permitiu
que o Brasil caminhasse para uma realidade cada vez mais autoritária e
patrimonialista de Estado.
Entretanto,
se, por um lado, o subdesenvolvimento do País não tenha permitido uma aplicação
do Estado de Bem-Estar Social, por outro, o Estado brasileiro implementou
programas, se desenvolveu no decorrer do tempo, aplicou os PNDs, criou um parque
industrial considerável e formou, com todos os problemas, os serviços públicos.
TRANSFORMAÇÕES
- Como bem aponta Octavio Ianni [1],
é na década de 30 que ocorrem grandes transformações no Estado e, portanto,
se queremos fazer uma análise com o mínimo de profundidade da formação do
Estado no Brasil, na perspectiva de mudanças, temos que realizar um balanço de
lá para os tempos atuais.
Se
temos claro que o desenvolvimento do capitalismo não se dá apenas por meio da
ação empresarial, perceberemos que o Estado assume um papel-chave nesse
processo. E não poderia ser diferente. Como já identificamos, ao apontar o
papel da superestrutura estatal, cabe ao Estado assumir a direção do
desenvolvimento do capitalismo.
Podemos
afirmar que foi na Revolução de 30 que o Estado adquiriu elementos centrais do
conteúdo burguês, rompendo decisivamente com os elementos oligárquicos que o
hegemonizava. É nesse período que inicia o desenvolvimento do Estado burguês,
não somente nas esferas da política e da economia, mas também nas esferas
sociais e culturais.
Se
o Estado oligárquico não foi liquidado, mas suficientemente derrotado para
desenvolver um processo de construção do Estado burguês. Podemos afirmar, então,
que todas as condições para uma adequação do Estado ao subsistema
capitalista brasileiro, adequando-o ao funcionamento do mercado, às forças
produtivas, às relações internas e externas do capitalismo, começaram a ser
construídas. Inclusive com a preocupação de colocar os limites do
funcionamento da força de trabalho, colocando-a sob a responsabilidade do
Estado.
Isso
significa uma mudança nas relações jurídicas e na legislação, incidindo
direto sobre a força de trabalho e suas formas de organização na sociedade.
Mas foi nos governos de Vargas e de Juscelino, com o desenvolvimentismo e a
substituição de importações, que o Brasil alcançou um grau de
desenvolvimento.
É
verdade que com isso aprofundou-se o papel do Estado como sociedade burguesa, um
Estado dirigente nesse processo. É certo que esse Estado precisa de mudanças
profundas, voltadas para os interesses dos trabalhadores, além de colocar em
xeque os instrumentos das classes dominantes. Nenhum governo representante da
burguesia, muito menos FHC, pode fazer isso, se não consolidar a base social
que o sustenta.
As
Ações de FHC: Liberalismo e Conservadorismo Autoritário
O
que tem para ser reformado em um Estado considerado repressor não pode ser as
mudanças de mesa do Ministério da Administração e Reforma do Estado.
Com
certeza, chamam de Reforma mudanças no aparelho de Estado dirigidas unicamente
a atender uma determinada agenda e com um discurso falseador . O Estado não é
nada mais do que um aparelho de dominação de uma classe sobre a outra. As
classes sempre usaram seus aparatos para dominar outras com poucas condições
financeiras.
PRIORIDADES
- Só que no capitalismo isso toma um outro significado. A força recebe novos
aliados, como a escola, a religião, a imprensa etc. Tudo isso para melhor
manter o poder de dominação. Quando escutamos falar em reformas temos que
prestar atenção para saber o que está sendo feito e quem ganha com isso.
Um
país que possui 32 milhões de pessoas em miséria absoluta, 2,7 milhões de
crianças sem escola, 12 milhões de desempregados, 5,6 milhões de famílias
sem moradia, deveria ter uma prioridade clara: resolver os problemas sociais. No
lugar disso, esses problemas crescem e aumenta o número de miseráveis.
O
pior, se levamos em consideração que as grandes mudanças que existiram no País
ocorreram por causa da mobilização e da capacidade de luta, mesmo que ainda
pequena, dos setores democráticos e populares, podemos observar a tendência
decadente que se encontra a Nação. Acabar um órgão como o DNOCS, por
exemplo, que com todas as dificuldades, é o que contribui para a seca não ser
algo devastador e arrasador para um povo que já vive a má sorte de ser privado
do direito da água pela natureza, além de sofrerem as mazelas do capitalismo, é de uma total
irresponsabilidade.
Tal
reforma não se propõe a dividir renda, gerar novos empregos e novos postos de
trabalho, dividir a terra, erradicar as doenças infecciosas, eliminar o
analfabetismo etc. Ao contrário, teve três grandes pilares: destruir os serviços
públicos, dilacerar a
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ABSURDO
- O governo, desde seu primeiro mandato, argumenta o corte de gastos para
esvaziar radicalmente os serviços públicos e desestatizar o Estado, ampliando
exageradamente o nível de desempregados. Entretanto, com todos os argumentos de
preocupação com os gastos públicos, gastou-se mais de R$ 80 bilhões com as
privatizações para reduzir apenas 20% dos gastos dos setores privatizados que
hoje não são nem do Estado.
Os
absurdos dos financiamentos feitos pelo BNDES, com moedas podres, subsídios
para empresas comprarem as estatais, investimentos em tecnologia, para logo
depois revender, mostra a falsidade do argumento de economizar.
Pior,
assistimos a um crescimento generalizado do desemprego às custas da entrega do
patrimônio público e de uma justificativa de corte de gastos para ajudar o
caixa do FMI com a dívida externa.
Os
absurdos não param por aí. O próprio governo rebaixou o limite de 50% para
gastos máximos com os servidores públicos federais. Ainda não chegou a esse
índice, que está hoje em torno de 43%. Mesmo assim, o governo insiste em
diminuir os gastos que ainda estão abaixo do percentual que ele mesmo
estabeleceu em uma das regulamentações da Reforma.
Na
verdade, isso é uma concepção que está sendo colocada em prática, que nada
tem a ver com gastos. O governo quer incentivar a demissão, pela ameaça da
licença sem vencimento, da disponibilidade, da transferência generalizada e
sem critérios e da redução da jornada de trabalho com redução dos salários,
de todo o pessoal de nível médio que forma o chamado grupo do PCC.
O governo quer mesmo é transformar a parcela do Estado que atende à população em um balcão de negócios, que regulamente e gerencie a ação privada. Faz isso com a lógica do mercado, não com a lógica dos serviços públicos, que não pode ser regulada pela visão do lucro, mas sim pela visão do desenvolvimento.
PACOTÃO
- O governo argumenta que com essas medidas terá uma redução de R$ 600 milhões
nos seus gastos. Mas é o mesmo governo que dá 700 milhões para fechar a Ford.
O próprio Mário Covas concorda que “receber recursos para fechar uma fábrica
é o fim da picada” (Folha de S. Paulo de 27/07/99), ou seja, mesmo entre os tucanos não
tem acordo. Mais uma vez os argumentos são desmantelados.
As
mentiras não têm fim. A história de que há um grande número de servidores
em comparação à população e ao peso dos gastos com o pessoal diante do PIB,
é talvez a pior das manobras governistas. O Brasil possui 8% de servidores em
relação à PEA, enquanto os EUA possui 14%; a Venezuela, 14%; a França, 20%;
e a Finlândia, 26%.
Temos
um dos menores índices. Mas essas informações não são mostradas. A própria
Inglaterra, inspiradora das reformas impostas no Brasil, possui 91,4 servidores
para cada mil habitantes. Temos ainda, o agravante de problemas sociais
profundos de um país que não passou por um desenvolvimento como a Inglaterra e
possui reformas básicas pendentes como a Reforma Agrária, com um número de
miseráveis e analfabetos significativo.
ATENDIMENTO
- É claro que o governo não divulgaria essas informações. Inclusive porque
alegam que o Rio de Janeiro é o estado que tem o maior número de servidores.
Isso é uma meia verdade, perniciosa, que serve para o projeto que o governo vem
aplicando no Brasil. Do ponto de vista númerico-quantitativo, o Rio de Janeiro
possui o maior número de servidores. Entretanto, do ponto de vista servidores x
população o Rio fica para trás.
A
última argumentação é de que os servidores de nível médio ganham acima do
mercado. Mas que mercado? O Brasil está se tornando um grande mercado que
interessa para qualquer um, pois não tem intervenção de governo, é
controlado pelo sistema financeiro, permite grandes lucros com serviços que
deveriam ser para facilitar e melhorar a vida dos cidadãos. Mas não é isso
que ocorre, pois o balcão de negócios do Governo Federal funciona para
privatizar todos os investimentos públicos feitos no Brasil e os que não
privatizam diretamente, se privatiza pela lógica do funcionamento e das transações.
Entretanto,
esse argumento é também perverso porque a divisão que o governo quer submeter
os brasileiros é a divisão da miséria. Não pretende dividir riqueza, não
ataca a grande concentração de renda, aprofunda a miséria, rebaixando por
baixo os salários. O que o Brasil viu nesses últimos anos foi a desregulamentação
dos direitos trabalhistas, privatização das empresas estatais, ataque aos
serviços prestados à população, desqualificação da qualidade de ensino,
falta de investimento na saúde, aumento do desemprego e nenhuma, absolutamente
nenhuma, reforma importante foi feita.
REFORMA
AGRÁRIA - É só verificar a situação da Reforma Agrária, que nunca
aconteceu. O PDV é mais um exemplo dessas investidas antipopulares. Um programa
que nada tem de voluntário. Ele é
coercitivo, pois quem não assumir participar dele será brutalmente submetido a
situações piores, como a disponibilidade, as transferências, as licenças sem
vencimento e a redução da jornada de trabalho com redução dos salários.
Isso é coação.
Portanto,
temos todos os argumentos para trazer a sociedade para o nosso lado e para fazer
com que nenhum trabalhador do serviço público se submeta a esse programa
absurdo de demissão coercitiva imposto por FHC e pelo FMI. Mais uma vez os
trabalhadores estão pagando para resolver um problema de caixa do governo e do
seu banco particular, o BNDES.
O
governo teve a cara-de-pau de investir em empresas públicas e estatais antes de
serem privatizadas para melhor repassá-las a preço de “banana” para as
multinacionais. Tudo foi feito na mais profunda “legalidade” da miséria, da
fome, do desemprego, do arrocho, mas, é claro, com a chancela e a direção do
FMI. Agora, frente as suas necessidades, as mesmas que as dos oligopólios
representados pelo FMI, totalmente contraditórias em relação à maioria da
população, implementa um plano de demissões.
Será
que precisamos de muito esforço reflexivo para identificar os objetivos dessas
medidas? Dentro de um governo que tudo está entrelaçado em linhas paralelas e
perpendiculares para transformar os serviços públicos e o aparelho de Estado
em um grande balcão de negócios, nos parece que está tudo muito claro. Caberá
aos serviços públicos, se assim podemos continuar chamando, somente gerenciar,
atrás de uma mesa de escritório, as coisas que serão feitas pelo processo de
privatização disfarçado em terceirização e organizações sociais.
DESMONTE
- O Contrato de Gestão, ou “Contrato Gradual de Privatização dos Serviços
Públicos”, se prestará ao desserviço de repassar o patrimônio para uma
execução de tarefas, que precisam ser do Estado, para a lógica liberal e
privatista. Não tenham dúvidas que todas as ações que estão ocorrendo, onde
a FNS e as DEMEC’s foram extintas, os trabalhadores demitidos, a Funai desmontada, o Ibama, o
Incra e o CNPq são transformados em agências executivas e organizações
sociais, é uma trilha da mesma estrada desse pacote. A desregulamentação do
RJU, o fim acelerado dos concursos públicos, o fim da estabilidade, a extinção
de cargos, foram complementos para iniciarem um processo onde desemboca agora em
um dos golpes mortais e finais de um governo que é devastador do patrimônio público.
Não
podemos nos enganar. Onde está o projeto do Ministério da Defesa que até
agora não apareceu? Enquanto não aparece, não nos privamos de afirmar que
“não há projeto nenhum”. É uma manobra de abertura de fronteiras de
separação dos servidores civis dos militares, apostando em uma ação
concentrada nesse setor.
Como
não é possível aplicar as agências executivas e as organizações sociais,
pois não é objetivo mexer com o núcleo repressivo dessa forma, se contenta em
separar os setores para uma ação direta nos servidores. Já que os servidores
militares, em sua enorme maioria, cumprem as tarefas de apoio e administração,
que são alvo do novo pacote de demissões, um pacote de “exclusão involuntária”.
Nas
estatais, não é muito diferente. Esses trabalhadores não sofreram alguns
impactos, como os que desregulamentaram o RJU, pois são regidos pela CLT. Mas
agora sofrem os impactos das demissões
que vieram nos mares de ondas devastadoras das privatizações. Repassar todo o
setor produtivo, todo o parque industrial, toda a produção que reforçava
elementos básicos de formação de uma Nação com algum pingo de autonomia,
sempre foi objetivo de um governo deliberadamente dependente.
*. Esse texto é uma introdução à discussão sobre Estado e Desenvolvimento. Fui publicado na revista do SINDSEP-DF (ano 1, número 1, 27/08/99).
** Assessor da CONDSEF e Cientista Social
[1]
. Estado e Planejamento Econômico no Brasil. Ianni, Octavio; Civilização
Brasileira; 1986.