De Braços Abertos para os explorados! De Punhos Fechados para o Capital!

De Braços Abertos para os explorados.

De Punhos Fechados para o Capital.

 

Há, sem dúvida nenhuma, dois aspectos fundamentais para serem discutidos no II Congresso: o projeto estratégico e a organização do PT. Mesmo porque o Partido deve organizar-se coerentemente com seu projeto. Não podemos transformar a discussão sobre organização em uma discussão burocrática, desvinculada da luta de classes e do nosso programa para alterar a correlação de forças a favor das classes trabalhadoras. Isso seria um equívoco, e por mais que algumas propostas sejam corretas, poderiam acabar construindo um Partido que não corresponde à realidade social que temos. É claro que abrir o Partido, construir uma organização coerente com a história do Brasil, não pode ser assimilar o conservadorismo autoritário que impregnou os quase 500 anos de nossa formação. Nesse caso são “outros 500” que devem interessar-nos, os quais estão marcados por várias formas de organização em que o povo explorado e marginalizado soube, de diversificadas maneiras, dizer não ao projeto do opressor. E é essa realidade social que nos deve importar.

Um dos exemplos das inversões, dos equívocos dos discursos de abertura sem relação direta com experiência de história e organização do povo, está nas idéias de filiação em massa, fim dos núcleos de base e eleições diretas. Nada mais conservador, pois tais propostas destroem nossas instâncias. Por outro lado, os propositores de tais modificações são defensores de primeira hora da eleição em separado da figura do presidente e do seu reinado absoluto frente aos demais membros da direção. Olhem a ironia do discurso que aparece como democrático e que concentra a visão conservadora que fora reforçada no Brasil com as Capitanias Hereditárias.

Ao contrário disso, devemos construir posições banhadas por uma alternativa realmente democrática, em que a transparência e a abertura do Partido sejam algo inequívoco para as massas exploradas, pois, não temos dúvidas, “lugar de socialistas é no PT” e o lugar dos explorados também deve ser o PT. Se é verdade que as teses blanquistas messiânicas, de pequenos grupos de iluminados detentores da verdade revolucionária, não nos dão soluções; as visões conservadoras de concentração de poder, com um presidencialismo despótico, recheado de discurso populista para a abertura do Partido, nos colocam no terreno da burguesia.

Começaremos então afirmando nossa abertura partidária, tendo clareza que o PT tem a mais profunda inserção nos movimentos de massas, nos movimentos reais organizados pelos explorados. Essa relação estreita, de referência, de participação, de elaboração coletiva de políticas, a partir da qual se formará um projeto, para lutarmos em todas as esferas da sociedade, é a receita fundamental do partido de que precisamos. Nosso projeto não pode ser limitado, não pode ser ambíguo, não pode ter duas caras. É um projeto que cava trincheiras no terreno popular, acumula na organização dos trabalhadores, acumula na democracia direta, nos qualifica para disputar na institucionalidade e indica nossa sustentação e nossa ação nos governos e parlamentos. Aí sim, temos um projeto político, temos uma alternativa popular, que pode ser chamada de democrática e popular, sem o medo de repetir os erros do antigo PeCeBão.

É certo que o conteúdo só pode ser intransigente, como podemos notar em todas as teses dos companheiros que compõem a chamada “esquerda partidária”. Há muita diferença entre nós, mas, sem dúvida, há um consenso que deve ser firmado na construção de um programa anti-imperialista, anti-monopolista e anti-latifundiário. Um programa que “fere de morte” o capitalismo, confluindo as diversas experiências de luta e resistência do nosso povo e sintetizando-as no nosso partido. Um programa que saiba ser uma alternativa real à “teologia neoliberal” e apresente, numa transição de acúmulo de forças, através de uma tática prolongada, os caminhos que construirão uma sociedade socialista. Portanto, só referenciado em uma estratégia socialista, com um partido socialista, é que o programa pode firmar-se com êxito num projeto democrático e popular.

Nesse sentido, podemos afirmar que o PT deve ser organizado para incorporar a diversidade existente na classe trabalhadora, deve abrir-se para o conjunto dos explorados e marginalizados, mas deve estar mergulhado em uma concepção socialista. Para isso, muitas mudanças nos esperam no caminho. As mudanças da democracia interna, da democracia socialista, devem impregnar nosso partido em todas as esferas de atuação e todas as instâncias organizativas. Politizar, organizar, democratizar, mudar, são lemas que temos pela frente. Uma das mudanças urgentes é a forma como é eleito o presidente do PT e seu poder “monárquico” frente às instâncias. Devemos inserir os candidatos nas chapas, acabar com as disputas separadas, politizar as disputas. Não existe petista que esteja descolado das diferentes posições internas. Portanto, devemos aprovar nesse Congresso, para acumular no Partido necessário e para abri-lo ao debate, a inclusão da eleição do presidente na chapa, através da proporcionalidade qualificada.

Outro elemento fundamental para abrir o PT é o funcionamento de nossos núcleos, colocando-os como esferas reais da organização e do poder interno. Devemos apostar em núcleos que funcionem regularmente, como instâncias básicas, fundamentais, onde todos os filiados serão chamados à participação. Ou seja, a porta de entrada do militante para o PT deve ser os núcleos e é desse fórum que os militantes devem participar diretamente, de forma periódica e orgânica ou nos encontros. Ou seja, deve ser através dos núcleos que devem dar-se o debate sobre as diversas teses e a escolha dos delegados para os encontros Municipais e/ou Regionais. Por outro lado, deve ser horizontalmente com os núcleos, criados os setoriais, onde os militantes dos movimentos possam discutir as teses internas, as políticas para os movimentos específicos e indicar os delegados para os encontros.

As regras, assim, devem ser as mais participativas. Mas não estamos falando das regras que perduram na sociedade burguesa, no Estado de Direito, no mundo capitalista. Estamos falando das nossas regras. Aquelas que sempre criamos nos movimentos organizados, que deram nossa cara, que fizeram a diferença, que estiveram presentes nas revoluções que foram a criação do PT e da CUT. Temos que trazer cada filiado para o debate, para apresentarem suas idéias, transformando-os em um sujeito ativo, em militantes. Para isso temos que rechaçar políticas de eleições sem ampla discussão; de personalidades que se aproveitam para colocar seus nomes acima das idéias coletivas; de filiações sem compromisso que acumulam no terreno burguês. O funcionamento de nossas instâncias com democracia, diversidade, politização, como espaço real de decisão, que não se deve resumir no voto, mas na participação qualitativa, é que vai garantir a nossa coerência entre projeto socialista e partido socialista.

 

Eduardo Alves – PT – DF